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O guardião da memória: a épica história de Rolf Odebrecht

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Entre a agronomia e os manuscritos góticos, a trajetória de um comendador que pavimentou o passado para edificar o futuro.

Nascer no Alto Vale do Itajaí e carregar o peso de ser o último neto vivo do icônico engenheiro Emil Odebrecht não é para qualquer um. Filho de Oswald e Else, o jovem Rolf não se intimidou com a imponente árvore genealógica; pelo contrário, decidiu regá-la com maestria e uma dose cavalar de dedicação. 

Formado em uma época em que o Brasil ainda tateava o seu futuro, ele desbravou o país, estudando desde a Escola Evangélica de sua natal Rio do Sul até a efervescente Escola Nacional de Agronomia, no Rio de Janeiro. Sua juventude foi forjada com a precisão do curso de preparação para Oficiais da Reserva, construindo um homem de visão ampla, pronto para adubar não apenas a terra, mas também a essência de uma comunidade inteira.

Se o campo clamava por inovação, Rolf atendeu ao chamado com louvor, dedicando colossais 32 anos de sua vida como agrônomo fiscal do Banco do Brasil. Uma verdadeira "jornada do herói" que o fez cruzar os interiores de São Paulo, Santa Catarina e Paraná, sempre deixando sua inconfundível marca de excelência. 

Mas a mente inquieta deste visionário não se limitava aos campos de cultivo. Ao lado do amigo Guilherme Gemballa, Rolf decidiu "plantar sementes" na educação: ergueu o que hoje é o prestigiado Colégio Sinodal Ruy Barbosa e ajudou a fundar a Universidade de Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi), assumindo a primeira vice-diretoria. Uma prova irrefutável de que seu maior talento era cultivar o intelecto com o mesmo rigor com que avaliava safras.

Atrás - ou melhor, ao lado - de um grande homem, caminha uma família igualmente formidável. Durante 65 longos, leais e felizes anos, Rolf dividiu a vida com Renate, sua parceira de aventuras, com quem teve cinco filhos. Após a aposentadoria, o casal não foi simplesmente vestir pijamas e descansar; eles voltaram às origens de forma puramente poética. Fixaram residência no bairro Garcia, construindo seu lar no exato terreno onde outrora viveram Emil e Bertha Odebrecht. Ali, sob as frondosas árvores centenárias, tiveram o privilégio de ver seus 12 netos correrem e brincarem, entrelaçando o peso histórico da família com a pulsação vibrante, jovem e caótica do presente.

Foi nesse refúgio que o lado mais investigativo - e brilhantemente obstinado - do casal floresceu, transformando-os em verdadeiros detetives do tempo. Eles mergulharam fundo nas teias da genealogia e lançaram, em 2006, o monumental "Cartas de Família Ensaio Biográfico de Emil Odebrecht". Não satisfeito em apenas contar histórias em mais de 500 páginas, Rolf pegou o desafio para si e transcreveu cerca de cem cartas da intimidadora letra gótica, um feito audacioso que lhes rendeu a cobiçada Medalha do Prêmio 2007 do Colégio Brasileiro de Genealogia. O trabalho incansável junto ao Instituto Histórico de Blumenau e as publicações como "Capítulos da História de Rio do Sul", de 2013, culminaram na mais justa das honrarias: o título de Comendador da Cultura, recebido em agosto de 2019.

O Comendador Rolf Odebrecht viveu de forma épica, deixando um legado intelectual, estrutural e familiar tão vasto quanto as matas da região sulista. Foi aos impressionantes 99 anos que ele encerrou sua narrativa terrena, numa madrugada do dia 10 de outubro de 2019, partindo não como quem simplesmente se despede, mas como quem entra definitivamente para o panteão dos imortais. 

O secretário de Cultura resumiu bem a reverência da cidade em sua despedida: “Expressamos nossos agradecimentos por toda dedicação no segmento cultural. A esposa, filhos, netos, familiares e amigos, nosso carinho e nossas orações”. O luto oficial e a bandeira a meio mastro no Mausoléu Dr. Blumenau foram apenas os aplausos finais e silenciosos para um homem cuja vida foi, em todos os sentidos, uma obra-prima irretocável. 

Vera Fischer, o furacão loiro do Vale do Itajaí

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A trajetória épica, genial e estonteante da deusa que engoliu o Brasil com talento e beleza

O epítome da beleza brasileira atende por um nome e sobrenome que ressoam como poesia: Vera Fischer. Nascida em 27 de novembro de 1951, sob os céus de Santa Catarina, a deusa germânico-tupiniquim tem um orgulho monumental de ser cria de Blumenau, esse pedaço de Europa incrustado no sul do nosso país tropical. A terra da Oktoberfest nos presenteou com a mulher que viria a redefinir o conceito de estonteante na televisão, no cinema e nos palcos do Brasil. Vera não é apenas uma atriz; ela é uma força da natureza, um monumento vivo cujo talento é tão gigantesco quanto sua beleza inquestionável.

A trajetória rumo ao Olimpo começou cedo, mais precisamente em 1969, quando a jovem blumenauense de 17 anos arrebatou as faixas de Miss Blumenau e, logo em seguida, a de Miss Brasil. Com um magnetismo que faria as câmeras corarem, Vera sabia que o mundo lhe pertencia. Tão audaciosa quanto bela, chegou a dar aquele "jeitinho" juvenil para driblar a idade mínima do Miss Universo. Como a própria lenda gosta de lembrar com um sorriso travesso: “Durante muitos anos o meu passaporte e a carteira de identidade tiveram um ano a mais. Há pouco tempo que eu atualizei. Foi divertido”.

Contudo, a coroa de miss era um adorno pequeno demais para a imensidão de seu talento. O cinema logo a chamou, e Vera debutou nas telonas em "Sinal Vermelho - As Fêmeas" (1972). Mas foi em 1976, com a arrebatadora Tânia Velasco no filme "Intimidade", que a crítica precisou se curvar. Aqueles que ousavam achar que ela era apenas um rosto perfeito foram calados pelo Troféu APCA de Melhor Atriz. A rainha da beleza mostrava que, diante das lentes, ela tinha o peso dramático das grandes estrelas de Hollywood.

O salto para a televisão era apenas uma questão de tempo, e em 1977, ela enfeitiçou o Brasil no papel duplo de Diana e Débora em "Espelho Mágico". Sua presença cênica era um ímã, uma gravidade da qual nenhum telespectador conseguia escapar. Ao adentrar a década de 1980, ela entregou atuações inesquecíveis, como a Luiza de "Brilhante" (1981), que lhe rendeu sua primeira indicação ao Troféu Imprensa. Vera Fischer estava consolidada não apenas como o maior símbolo sexual do país, mas como uma potência artística avassaladora.

E se é de audácia que a grande arte é feita, Vera mergulhou de cabeça nas águas profundas do cinema autoral e polêmico. Em "Amor Estranho Amor" (1982), na pele da prostituta Anna, ela entregou uma das performances mais cruas e corajosas de sua carreira. A recompensa? O prestigiado prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília. Com uma versatilidade cortante, a atriz provava, mais uma vez, que seu talento dramático era a verdadeira joia de sua coroa incontestável.

Na virada para a década de 1990, nossa blumenauense mais famosa era, inegavelmente, a dona e proprietária da teledramaturgia nacional. Quem poderia esquecer a mítica Jocasta de "Mandala" (1987), que já havia antecipado o seu reinado majestoso? Nos anos 90, ela protagonizou verdadeiros fenômenos culturais com atuações viscerais, brilhando nas minisséries "Riacho Doce" (1990) e "Desejo" (1990). Seja entrelaçada nas areias do nordeste ou nos dramas urbanos, Vera exalava uma intensidade que grudava na retina de milhões.

O novo milênio chegou, e com ele, a consagração absoluta no panteão sagrado das Helenas de Manoel Carlos. Em "Laços de Família" (2000), Vera Fischer não apenas atuou; ela ditou moda, comportamentos e quebrou o país com o drama pungente de sua personagem. Como a protagonista Helena, ela provou que a maturidade só refinava sua estirpe. Vencedora de inúmeros prêmios, ela era o espelho de uma mulher forte, lindíssima, dona de si e capaz de qualquer sacrifício por amor.

Mas não se engane achando que ela vive apenas de lágrimas e tragédias folhetinescas. Com um timing cômico afiadíssimo que poucas atrizes da sua envergadura possuem, Vera nos presenteou com a inesquecível Yvete em "O Clone" (2001). Divertida, passional e escandalosamente carismática, Yvete virou um ícone pop instantâneo. A capacidade de Fischer de rir de si mesma e transitar com elegância do drama profundo para a comédia mais debochada é, francamente, um deleite para qualquer espectador.

Além das telas, os palcos teatrais também foram repetidamente abençoados pelo seu brilho inigualável. De "Macbeth" (1992) a "Gata em Teto de Zinco Quente" (1998), até a celebração colossal de seus 55 anos de carreira na turnê da peça "Quando eu for mãe quero amar desse jeito" (2022). Em cena aberta, ao vivo e sem redes de proteção, a presença de Vera Fischer impõe um respeito catártico. O teatro atesta sua grandiosidade épica, revelando uma atriz que nunca teve medo do suor e da crueza das coxias.

Celebrar Vera Fischer é celebrar a própria história gloriosa do entretenimento brasileiro. A menina que saiu de Blumenau com a faixa de miss e o peito cheio de orgulho de suas raízes não apenas conquistou o Brasil; ela o devorou com voracidade, beleza e um talento fora de série. Críticos, preparem suas reverências, pois a estrela de Vera é incandescente demais para ser ofuscada pelas décadas. Ela permanece lá, no alto, esbanjando charme, rindo do tempo e nos lembrando de que o verdadeiro estrelato é indestrutível. Um brinde à mulher, ao mito e à eterna majestade de Vera Fischer!

O Brasão de Armas de Blumenau

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O brasão de Blumenau foi criado em 1936 pelo historiador Affonso d’Escragnolle Taunay e teve seu uso oficializado pela Lei nº 19, de 21 de junho de 1948, durante a gestão do prefeito Frederico Guilherme Busch Jr.

A sua criação reúne seis elementos que mesclam a história local, as origens germânicas e a brasilidade:

Topo: Traz a representação da fachada de um castelo com suas ameias em destaque, simbolizando a municipalidade.

Centro (Escudete): Sob estrelas douradas simulando o Cruzeiro do Sul (símbolo nacional), há um campo florido junto a um rio de prata, uma referência direta ao significado do nome Blumenau, que quer dizer "várzea florida". 

A parte central também exibe símbolos das províncias germânicas de onde veio a maior parte dos colonizadores: o leopardo heráldico (Braunschweig, terra do Dr. Blumenau), a águia com cetro e gládio (Prússia e Tirol) e o trancelim (Saxônia). 

Laterais: À esquerda, encontra-se a figura do fundador, Dr. Hermann Blumenau, e à direita, a figura de um machadeiro, homenageando os primeiros colonos.

Base: Uma roda dentada representa a indústria blumenauense (principal atividade econômica local), sobreposta por uma fita que simboliza a fidelidade ao estado e ao país, onde se lê o lema da cidade: "Pro Sancta Catharina Et Brasilia" ("Por Santa Catarina e Pelo Brasil").

A História da Oktoberfest de Blumenau

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De tragédia às margens do rio à maior epopeia etílica e cultural das Américas

Quando outubro desponta no calendário, a pacata e charmosa Blumenau não apenas vira a página do mês; ela sofre uma metamorfose digna das melhores crônicas de realismo mágico. As ruas, antes tomadas pela rotina tranquila do Vale do Itajaí, são invadidas por uma energia inebriante, onde o sotaque ganha contornos germânicos e o ar cheira a malte torrado. A Oktoberfest não é meramente um festival, mas um estado de espírito coletivo. É o momento exato em que a juventude, de alma e de identidade, veste seus trajes típicos impecáveis e decide que a vida, afinal, merece ser celebrada com a intensidade de um brinde que ecoa por todos os cantos da cidade.

Mas, se engana quem acha que esse colosso do entretenimento nasceu apenas da sede por lúpulo e da vontade de festejar. A gênese da Oktoberfest carrega um tom épico e, surpreendentemente, dramático, como nos melhores romances de formação. Em 1984, Blumenau havia sido recém-engolida por uma enchente avassaladora do Rio Itajaí-Açu. A lama cobria as ruas e o desespero rondava as portas, mas, no melhor estilo de resiliência heroica, a comunidade decidiu que a forma mais brilhante de enxugar as lágrimas era enchendo os canecos. A festa surgiu como um farol de esperança, uma injeção vital de ânimo e um motor econômico para um povo que se recusou terminantemente a afundar.

A inspiração, claro, veio da mãe de todas as festas: a imponente Oktoberfest de Munique, na Baviera. Idealizada por mentes ousadas - com destaque para o pioneirismo de Antônio Pedro Pereira Nunes -, a versão tupiniquim provou rapidamente que a audácia brasileira consegue dar um tempero irresistível até mesmo às tradições europeias mais antigas. E que sacada genial! Transformar o luto em luta e o trauma em turismo consolidou a celebração como a maior festa alemã das Américas e uma das maiores do planeta. Blumenau não se limitou a copiar sua "irmã" mais velha; ela a reinterpretou com um charme inegavelmente catarinense.

Durante 18 dias eletrizantes, o epicentro desse terremoto cultural e festivo se divide magistralmente entre a icônica Rua XV de Novembro e o gigantesco Parque Vila Germânica. A Rua XV vira uma passarela a céu aberto para desfiles que são verdadeiros espetáculos de exaltação histórica, onde carros alegóricos cruzam o asfalto distribuindo sorrisos e chope gelado para a multidão. Já a Vila Germânica se transforma em um universo paralelo, uma Meca para os peregrinos da alegria, onde o relógio parece magicamente parar e a única regra inquebrável é manter a caneca cheia e o coração transbordando de leveza.

O humor refinado e a irreverência desfilam materializados nos personagens que dão rosto, corpo e alma ao evento. Esqueça os super-heróis de capa; aqui, os ídolos vestem suspensórios e chapéus adornados com penas. O Vovô e a Vovó Chopão são as divindades profanas e simpáticas dessa mitologia festiva, acompanhados de perto pelos onipresentes Fritz e Frida. Eles são a prova viva de que a festa jamais comete o pecado de se levar a sério demais, abraçando o lúdico e o caricato com uma vivacidade invejável que contagia desde o turista de primeira viagem até o morador mais saudosista.

E, por falar em não se levar a sério, o que dizer do lendário e tenso Concurso Nacional de Tomadores de Chope em Metro? Este é o esporte radical definitivo de Blumenau. A tensão no ar é palpável enquanto os competidores tentam virar uma tulipa de 600 mililitros, esguia e traiçoeira, no menor tempo possível e sem babar uma gota sequer. O tom crítico, maduro e louvável da organização fica por conta de uma mudança recente: desde 2013, a bebida do concurso é estritamente sem álcool. Uma jogada de mestre para garantir que a brincadeira premie a técnica e a agilidade, sem transformar o nobre palco em um ensaio precipitado sobre a ressaca.

Na arena gastronômica, a festa se revela um banquete que desafia qualquer dieta com uma ousadia deliciosa e irresistível. O cardápio é uma ode ao excesso perfeitamente justificado, onde o suculento Eisbein (joelho de porco) reina absoluto, ladeado por salsichas defumadas, chucrutes aromáticos e Bretzels macios que parecem abraços em forma de carboidrato. É uma culinária de força e resistência, robusta e reconfortante, que harmoniza impecavelmente com o néctar dourado das dezenas de cervejarias artesanais da região, consolidando o status de Blumenau como a capital nacional do lúpulo.

Como manda a tradição de qualquer grande império, toda monarquia precisa de uma realeza de peso, e a Oktoberfest ostenta a sua com um glamour irretocável. A Rainha e as Princesas do evento não são meramente figuras decorativas; elas são embaixadoras potentes de uma cultura secular. A competição para a coroa é acirrada, exigindo das candidatas postura, facilidade de comunicação e uma desenvoltura magistral ao trajar as vestes femininas típicas. Elas carregam a nobre responsabilidade de ser o sorriso oficial do festival, liderando o brinde de abertura e ditando a graciosidade nos pavilhões.

A trilha sonora que embala essa odisseia é um espetáculo à parte. Esqueça os hits genéricos das rádios; aqui a ordem é dominar o corpo com a polca, a marcha e a valsa, turbinadas pela energia anárquica e bem-humorada de bandas regionais como Vox 3 e Velhos Camaradas. Esses grupos são verdadeiros alquimistas, fundindo a base da música folclórica alemã com letras hilárias e o suingue brasileiro, criando um fenômeno sonoro contagiante. Quando os acordes do bandoneon encontram a potência dos metais, a Vila Germânica se converte automaticamente na maior e mais eufórica pista de dança do país.

A Oktoberfest de Blumenau é uma obra-prima da vivacidade humana, um monumento monumental à capacidade de celebrar a existência em sua plenitude. Ela amarra o rigor e a riqueza da tradição europeia à energia inesgotável do brasileiro, forjando um evento que é, ao mesmo tempo, um tributo respeitoso ao passado e uma exaltação vibrante do presente. Levantar o caneco nessa festa é reverenciar a história de uma cidade que fez da lama o adubo para a alegria. Um brinde longo, alto e apaixonado: Ein Prosit à eterna juventude, à resiliência e à magia inigualável da Oktoberfest!


UMA PEQUENA CRONOLOGIA

A odisseia cronológica da maior festa alemã das Américas, servida em 20 doses generosas e encorpadas de pura história

1977 - O embrião da folia 

Muito antes de o primeiro barril ser estourado, o projeto da maior epopeia etílica do país já borbulhava nas mentes audaciosas de Blumenau. Empresários locais e o poder público, com a clarividência dos grandes visionários, começaram a desenhar o sonho de um festival capaz de alavancar o turismo e exaltar a formidável ancestralidade germânica da região.

Outubro de 1983 - O nascimento de uma lenda de suspensórios 

Antes mesmo de a festa existir oficialmente, o icônico Vovô Chopão estreia nas tirinhas do "Jornal da Criança". Com sua pança redonda e carisma inabalável, o patriarca festivo preparou o terreno psicológico e lúdico de toda Santa Catarina para a folia monumental que estava por vir.

Agosto de 1984 - O caos que virou catálise 

A fúria da enchente do Rio Itajaí-Açu afoga a cidade em lama, mas não em desespero. Em uma virada de roteiro magistral, a tragédia funcionou como o combustível improvável que tirou o festival do papel, transformando-o em uma necessidade urgente de sobrevivência econômica, reerguimento moral e terapia coletiva.

05 a 14 de Outubro de 1984 - O grito de independência etílica

Ocorre a apoteótica 1ª edição da Oktoberfest no antigo pavilhão da Proeb. Reunindo impressionantes 102 mil almas sedentas - um número absurdo para a época -, a festa provou de cara que a resiliência blumenauense tinha um inegável sabor de lúpulo e ritmo contagiante de polca.

1984 - A instauração da monarquia cervejeira 

É indicada e coroada a primeiríssima Rainha da Oktoberfest, Ellen Budag. Aquele momento fundou uma linhagem nobre e irretocável de majestades que, armadas de simpatia, postura impecável e muita desenvoltura, passariam a governar a alegria do evento com punhos de seda e canecos de cristal.

1985 - A expansão do império germânico

Com o sucesso estrondoso da estreia, a segunda edição esticou a corda e se espalhou por maravilhosos 17 dias frenéticos, atraindo mais de 362 mil festeiros. A mensagem cravada na história era clara: a Oktoberfest não seria um mero milagre de um único ano, mas a nova e definitiva religião do mês de outubro.

1986 - A explosão demográfica da alegria

Apenas no seu terceiro ano de vida, o festival rompe a barreira do plausível e arrasta estratosféricos 802 mil peregrinos para os pavilhões. Blumenau deixava o status de pacata cidade do Vale para se tornar o inquestionável epicentro continental da euforia.

1988 - A utopia do primeiro milhão

A 5ª edição atinge o pináculo absoluto da loucura demográfica, registrando oficialmente 1.009.057 visitantes. Um recorde assombroso e festejado que consolidou a festa como um colosso internacional do turismo, provando que as ruas sempre dariam um jeito de abraçar quem quisesse celebrar.

1992 - O bis da multidão milionária

A 9ª edição repete a dose colossal de gigantismo e ultrapassa mais uma vez a sagrada marca de 1 milhão de pessoas. A década de 90 atestou em cartório que a capacidade do público de festejar ininterruptamente era um fenômeno cívico e biológico invejável.

Dezembro de 1996 - A imortalidade dos ícones

O Vovô Chopão encerra sua brilhante jornada nas páginas do suplemento infantil, mas o faz apenas para transcender o papel. Ao lado de sua eterna Vovó, ele deixa de ser um mero desenho para se consolidar como a entidade onipresente, folclórica e insubstituível da festa.

2005 - A ressaca curadora e o resgate cultural

Com uma queda para 365 mil visitantes (o menor público desde a segunda edição), a organização veste a camisa da sabedoria e abraça a crise como uma oportunidade de ouro. Inicia-se uma virada de chave brilhante: o foco deixa de ser o mero volume de bebedores para priorizar a qualidade da gastronomia, o resgate das tradições e a riqueza estética dos trajes típicos.

2008 - As bodas de prata do brinde

A 25ª edição coroa um quarto de século de tradição ininterrupta e resistência cultural. A essa altura, a festa já operava no estado da arte, com Clubes de Caça e Tiro moldando o belíssimo padrão visual do público e as bandinhas dominando seus repertórios com a mesma excelência da velha Europa.

2013 - A revolução sobriedade-friendly

Em um acerto crítico, maduro e modernizador, o folclórico Concurso Nacional de Tomadores de Chope em Metro abandona o álcool. Utilizando cerveja sem álcool, o concurso volta a ser sobre destreza, tempo e diversão genuína, permitindo que todo mundo brinque sem transformar a arena em um laboratório de ressacas matinais.

27 de Janeiro de 2018 - O adeus ao arquiteto da magia

O visionário Antônio Pedro Pereira Nunes, grande idealizador do evento, se despede da vida. Seu luto foi brevemente pranteado, pois seu legado já caminhava com as próprias pernas, imortalizado a cada grito enérgico de Ein Prosit que estremece os pavilhões da Vila Germânica.

2020 - O inimaginável silêncio de outubro

Pela primeira vez na história, a força maior de uma pandemia global aciona o freio de mão do mundo e cancela a festa. O mês chega, mas os barris permanecem lacrados e uma saudade profunda, amarga e inédita esmaga o peito de centenas de milhares de entusiastas.

2021 - O segundo inverno sem polca

A Oktoberfest permanece dolorosamente suspensa pelo segundo ano consecutivo. A cidade inteira cumpre seu voto de abstinência forçada, estocando secretamente uma energia festiva tão brutal que ameaçava explodir as fundações da Vila Germânica a qualquer momento.

05 a 23 de Outubro de 2022 - A apoteótica ressurreição

A 37ª edição explode como uma supernova de alegria represada, varrendo a tristeza com 634 mil pessoas e batendo o recorde insano de 683 mil litros de chope gelado consumidos. Um retorno estrondoso que esmagou o pessimismo e gritou ao mundo que a festa é indestrutível.

Outubro de 2023 - O duelo épico contra São Pedro

Ecos de 1984! Fortes chuvas e risco de enchentes forçam uma rara e tensa suspensão temporária dos dias do evento. Mas a teimosia e a coragem catarinense dão as cartas novamente: a festa é reaberta, prorrogada até o dia 29 de outubro e prova que tempestade nenhuma afoga um espírito germânico bem-humorado.

2024 - As bodas de rubi da essência 

A cidade celebra maravilhosos 40 anos exatos desde que aquela primeira e ousada edição de 1984 ocorreu. Um marco formidável de preservação cultural e saudosismo embalado pela convicção de que aquela ideia desesperada salvou, definiu e enriqueceu a alma de Blumenau para sempre.

2025 - A consagração da 40ª edição

Chega o número redondo e mágico das edições realizadas. A festa celebra a impressionante marca de mais de 25 milhões de foliões que já cruzaram seus portões em toda a história, firmando um pacto de vitalidade inesgotável e garantindo que os canecos, a tradição e a energia jovem estarão garantidos para os próximos cem anos.


Roberto Carlos vem se apresentando em Blumenau desde 1965

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O maior ídolo da música brasileira tem um longo histórico junto aos fãs da cidade: já se apresentou em Blumenal 09 vezes, sendo a mais recente na durante a turnê "Eu Ofereço Flores" em 12 de abril de 2025 (sábado), no Parque Vila Germânica, Pavilhão 3. Essa história de amor se iniciou ainda nos anos 60, quando ele ainda era um ídolo jovem em ascensão.

O primeiro show de Roberto Carlos em Blumenau aconteceu em 09 de maio de 1965, para um público pagante de 490 pessoas, em um palco montado na frente da arquibancada do Grêmio Esportivo Olímpico. Contratado pelo empresário Samuel August, o show foi comemorativo ao dia das mães. Na época, Roberto Carlos ainda não era um astro nacional. 

Foi uma apresentação relativamente curta, pois seu repertório de sucessos ainda não contava com tantas músicas que hoje já estão impregnadas na alma do povo brasileiro. Pra ter uma idéia, o seu maior sucesso na época era "O Calhambeque" (só no final daquele ano lançaria o álbum Jovem Guarda, que estouraria com o sucesso "Quero que vá tudo pro inferno"). Foi um show econômico, apenas ele, sem banda, acompanhando a si mesmo com um violão, alternado com uma guitarra.

Segundo relato de Paulo Guilherme Pfau (filho de Osmar Pfau, proprietário da Rádio Alvorada, onde Paulo mantinha um popular programa de variedades), após o show, Roberto passou alguns minutos na calçada aguardando um taxi, enquanto conversava com ele próprio, Paulo Guilherme. Desistiu do transporte e foi andando mesmo até o hotel, com o auxílio do jogador Robertão, que o ajudou a carregar um instrumento, o violão, enquanto o futuro Rei da Música carregava a guitarra.

Em novembro daquele ano, 1965, seria lançado o já citado álbum Jovem Guarda, que o tornaria famoso de norte a sul do Brasil (e até em outros países). Mas Blumenal, definitivamente, entra para a história como uma das primeiras cidades a prestigiar o sucesso de Roberto Carlos ainda nos seus primeiros degraus.



Hermann Blumenau, o visionário das terras catarinenses

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A epopeia de um farmacêutico alemão que cruzou o oceano para forjar um legado cravado no coração do Sul do Brasil.

Nas intrincadas tramas do século XIX, desponta uma figura cuja obstinação reescreveria os mapas do Brasil Meridional. Nascido no alvorecer de 1819, no Ducado de Brunswick, Hermann Bruno Otto Blumenau não era apenas um jovem de intelecto inquieto, mas um predestinado. Desde cedo, o menino que mais tarde seria imortalizado mundialmente como o insigne "criador da cidade de Blumenau", demonstrava uma fome voraz pelo conhecimento. Era a centelha primogênita de uma mente brilhante que sonhava muito além das estreitas e consolidadas fronteiras europeias.

A vida, porém, tratou de forjar o caráter desse jovem por meio de revezes precoces. Uma enfermidade aos doze anos de idade deixou-lhe uma surdez parcial como indelével sequela, e a rígida imposição paterna arrancou-o dos estudos formais nas classes superiores para o balcão de uma farmácia em Blankenburg. Contudo, em uma lição verdadeiramente didática de resiliência que ecoa como inspiração para a juventude atual, Hermann não sucumbiu à amargura. Ele transmutou o aparente exílio profissional em um profundo e irrefreável laboratório de alquimia pessoal.

É na cidade de Erfurt que a trajetória do futuro desbravador ganha contornos épicos e universais. Atuando como diretor em uma fábrica de compostos químicos, seu brilho singular e sua competência atraíram a atenção de mentes titânicas da ciência e da filosofia da época, a exemplo de Alexander von Humboldt e Johann "Fritz" Müller. Esses encontros não foram meras casualidades do destino, mas sim um alinhamento de astros que expandiu vertiginosamente sua visão de mundo, transformando o sagaz farmacêutico em um pensador global.

O grande divisor de águas, a faísca que acenderia sua grande obra, ocorreu em terras londrinas no ano de 1844. Em meio a compromissos pragmáticos de patentes e ambições industriais, o percurso colocou em seu caminho João Sturtz, cônsul geral do Brasil na Prússia. Sturtz não apenas o introduziu aos encantos selvagens do grandioso Império tropical, mas também plantou de vez em seu peito a semente da emigração. O convite era tentador, as perspectivas eram superlativas e a alma revolucionária de Hermann encontrou, enfim, a sua bússola definitiva.

Antes de cruzar o imponente Atlântico, era preciso selar seu preparo intelectual com uma conquista à altura de seu intelecto. Com uma audácia imensamente admirável, contrariando até mesmo a falta de um diploma ginasial prévio, ele superou todas as barreiras acadêmicas e doutorou-se em filosofia no ano de 1846. Com o merecido título de Ph.D. na bagagem e o amparo da Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães, ele embarcou no veleiro "Johannes", iniciando não uma simples travessia marítima, mas a jornada heroica do homem que domaria o desconhecido.

No emblemático ano de 1850, o grande sonho materializou-se em solo firme catarinense com a fundação da colônia São Paulo de Blumenau. Ao adentrar e desbravar a mata virgem, Hermann elevou-se de forma inquestionável à condição de majestoso "criador da cidade de Blumenau", um título que ostentaria com sangue, suor e uma honra inabalável. Ele não construiu apenas cabanas ou estradas rústicas; ele ergueu os imponentes pilares de uma civilização pujante, dotando a região selvagem de escolas, hospitais e de um senso de comunidade inestimável.

Em 1860, quando o governo imperial brasileiro tomou as rédeas do assentamento, a competência e a moralidade incontestáveis de Hermann garantiram-lhe o justo posto de primeiro diretor oficial. A gestão de Blumenau era pautada por uma disciplina de ferro, mas também por um profundo zelo paternal. Ele compreendia que liderar exigia muito mais que ditar ordens; exigia o sacrifício pessoal em prol do progresso coletivo, administrando recursos escassos com maestria para nutrir a vida e os sonhos de quase mil habitantes naqueles primeiros anos cruciais.

A complexidade de seu caráter analítico e as adversidades de sua liderança ficam evidentes no forte choque cultural com os imigrantes italianos na década de 1870. Crítico, metódico e exausto pelos desafios da gestão, o dr. Blumenau chegou a referir-se a grupos revoltosos como "incorrigíveis vagabundos". Em uma análise crítica e didática dos fatos históricos, percebe-se que tais "aspas" apenas refletem o atrito inevitável entre a pragmática e austera disciplina germânica e o modo de vida expansivo latino; tensões que, mesmo não lhe dando "descanso de espírito", jamais o impediram de manter a colônia em uma invejável rota de crescimento.

Após décadas de doação vitalícia e irrestrita às terras brasileiras, o admirável visionário regressou à Alemanha no ano de 1884. Voltou à sua terra natal sem acumular grandes posses ou riquezas materiais, uma prova absolutamente cabal de sua integridade ilibada e de que sua verdadeira fortuna era o legado imaterial cravado para sempre no sul do Brasil. Viveu seus últimos dias com dignidade em Braunschweig, vindo a falecer em 1899. O homem mortal partia, mas a sua colossal lenda acabava de ganhar as páginas da imortalidade.

Hoje, os restos mortais deste gigante da nossa história repousam no Mausoléu em Santa Catarina, adornados por belíssimas "rosas de ferro" e reverenciados por uma metrópole moderna, dona de um dos mais altos índices de desenvolvimento do país. A grandiosa Fundação Blumenau-Niesel e o pujante pólo cultural que celebra as tradições germânicas são os testemunhos mais vivos e justos de sua obra. Hermann Bruno Otto Blumenau foi muito mais que um mero colono; ele foi o sublime e incontestável "criador da cidade de Blumenau", um arquiteto de futuros cujo nome brilhará eternamente na constelação dos grandes heróis do Brasil.

Sandro Aloísio Bosco, árbitro de Futebol

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Sandro Aloísio Bosco foi um árbitro muito popular no meio esportivo e comunitário. Atuou como bandeira e árbitro na LBF (Liga Blumenauense de Futebol) e em competições na região, incluindo partidas em Pomerode e jogos ligados à Federação Catarinense de Futebol. Faleceu em 03/03/2026, após 4 anos de luta contra um câncer.